Lui Coimbra: um músico urbano com o olhar para o Brasil de dentro
Violão. Violoncelo. Charango. Rabeca. Instrumentos de corda
tocados magistralmente pelo multi-instrumentista Lui Coimbra, que também é
cantor, produtor de discos e trilhas sonoras. Carioca, filho de mineiros, Lui
Coimbra ama música e gosta de falar com gente que gosta de música. O resultado
não poderia ser outro: match entre Lui e a Rádio Eixo!
Narayana Teles _ Lui, você lançou dois CDs solo: Ouro e Sol
(2003) e Roda-Flor (2023). Em ambos, é perceptível a presença da poesia, como a
de Mário Quintana e Ferreira Gullar, além do folclore. Como se dá a mistura do
popular e do erudito em seus trabalhos?
Lui Coimbra _ A música popular brasileira é sempre fruto de
uma poesia que encaixa com a música, às vezes, a letra de música não sobrevive
sem aquela melodia, e no caso da poesia, ela tem vida própria. A poesia é algo
que me move muito. Acontece de eu ler uma poesia e a música vir imediatamente,
como foi o caso de musicar os poemas “Astrologia”, “O idiota desta aldeia”
(Álbum Ouro e Sol); “A ciranda rodava no meio do mundo” (Álbum Roda-Flor), de
Mário Quintana. Parece natural, pois a poesia já tem um ritmo, uma métrica, um
caminho. De certa forma, ela está pedindo uma música.
Narayana Teles _ Uma vez você declarou que seu trabalho
musical era um passeio pelo Brasil com uma lente urbana, contemporânea. Esse
passeio pelo Brasil, pelos vários Brasis, de sonoridades diferentes, seria uma
marca do Lui enquanto artista?
Lui Coimbra _ Enquanto pessoa, eu diria. Enquanto cidadão,
consumidor de cultura brasileira. Eu acho muito linda e muito rica a cultura
brasileira. Na cultura de massa a gente fica preso a dois, três ritmos da moda,
enquanto nós temos 200, 500 ritmos pelo Brasil inteiro. Desde criança, meu pai
mostrava discos com músicas de Marajó, Pernambuco, Mato Grosso, Minas Gerais (meus
pais e familiares são de Minas), e eu sempre gostei muito da música urbana que
a gente recebia pelo rádio, pela TV... De ouvir essas coisas genuínas do
interior do Brasil. Eu tenho sempre um olhar muito atento porque isso me move,
me comove bastante. Como você mencionou, isso acaba passando por uma lente
contemporânea. Eu vou fazer uma ciranda, mas a minha ciranda tem batida
eletrônica, tem violoncelo, não tem o compromisso de ser um historiador que
registra aquilo exatamente como acontece nos locais de origem. Eu sou bem livre
com isso, mas a inspiração é essa mistura da coisa contemporânea, dessa lente
urbana com esse Brasil de todos os cantos, como diz Milton Nascimento: “Não só
do litoral”, que é muito mais que qualquer zona sul. É uma linha geral, pelo
menos em meus trabalhos mais recentes. Não quer dizer que vá ser sempre assim,
mas sempre é algo tão profundo em mim, de me identificar com essas coisas do
Brasil de dentro, dos interiores. O “Viola Perfumosa” (Álbum de 2018), por
exemplo, é um álbum muito lindo com repertório de Inezita Barroso, no qual
participei com Ceumar e Paulo Freire, um trabalho musical que ganhou prêmio,
então, tem sido uma constante.
Narayana Teles _ Por falar em prêmio...
Você produziu o álbum musical “Senhora das Folhas” (2022), de Áurea Martins, trabalho indicado ao Grammy Latino em 2023, como foi essa experiência?
Lui Coimbra _ Um projeto lindo, lançado em 2022, que
homenageia as rezadeiras do Brasil inteiro. Se você escutar o disco, você vai
ouvir coisas que eram tradicionais de rezadeiras com arranjos super
sofisticados com guitarras, violoncelos, violinos, percussões sofisticadas, algo
natural pra mim, como falei anteriormente, de olhar, se inspirar e fazer do seu
jeito contemporâneo, do lugar onde você está, do jeito que você vê o mundo. “Senhora
das Folhas” ganhou o prêmio de melhor disco brasileiro, melhor produção de
disco brasileiro em 2023. Fomos indicados ao Grammy, mas não ganhamos. Uma
indicação muito importante, especialmente, para Dona Áurea. É um trabalho que
eu tenho muito prazer de ter feito, de um resultado muito emocionante. Uma
artista de mais de 80 anos, uma super cantora, que parece ser a mãe do Brasil
inteiro. É muito bonito, quem assiste ao show não tem como não se emocionar. É
muito alegre também, com danças, músicas líricas e festivas.
Narayana Teles _ “Tá caindo flor”, música presente em seu
mais recente trabalho “Roda-Flor”, é uma homenagem ao grande mestre Naná
Vasconcelos. Na gravação foi utilizada a caixa que pertencia ao músico, que
você acompanhou por mais de 10 anos, acredito que haja inúmeras histórias de
teor afetivo em sua carreira, até pelo fato de você ter tocado com muita gente,
poderia compartilhar alguma história conosco?
Lui Coimbra _ Eu toquei com muita gente bacana e a maioria
das pessoas com as quais eu toquei acabaram se tornando amigas. Desde o querido
Oswaldo Montenegro, que foi o primeiro com quem eu viajei pelo Brasil todo, até
o Naná, Dona Áurea Martins. O Naná eu já admirava há muitos anos. Nosso
primeiro contato foi em São Paulo no Projeto Orquestra Popular de Câmara, onde tivemos
uma afinidade muito grande. Anos depois, em uma turnê com o Alceu Valença pela
Europa, onde Naná estava também, nós estreitamos os laços. Ele me convidou para
fazer um show na Alemanha, lembro que era um teatro de madeira dentro de um
parque, um lugar muito especial, e Naná acabou participando de duas faixas em
meu primeiro CD solo (Ouro e Sol). Logo em seguida, participei da gravação do
disco dele em Recife, “Chegada” (2005). O disco “Chegada” era um quinteto, Naná
e 4 músicos: percussionista, piano, violoncelo e flautas. Estávamos em uma
pequena turnê pela Espanha e Naná me chamou para tocar com ele em Londres assim
que a turnê pela Espanha terminasse. Era um show solo, mas ele perguntou se eu
queria tocar com ele. Mas só eu e você? A gente tem show ensaiado com o
quarteto. O que vamos tocar? Perguntei. Ao que ele respondia: “Depois a gente
vê isso”. Ao término de cada show na Espanha, eu perguntava sobre o que iríamos
tocar em Londres e ele sempre respondia: “Ah, depois a gente vê isso”. Aí na
véspera da apresentação, ele me chamou no quarto do hotel para falar sobre o
repertório. Houve partes combinadas, não ensaiadas, mas pelo menos, combinadas.
Fizemos o show em uma casa de jazz, em Londres, onde havia tocado Miles Davis,
todos os grandes músicos de jazz do mundo. Uma plateia muito ativa. Naná era
muito respeitado na Europa. Só em anunciar o nome de Naná, a plateia já ficava
em pé aplaudindo. Fizemos o show. No final dele, aquela fila pra conversar, e a
pergunta era: “Quantos anos vocês ensaiaram para fazer esse show? Tão
encaixado, tão harmônico”. A partir daí, fizemos algumas vezes esse duo, a convite
de Naná. Embora tenhamos ficado muito próximos, nunca deixei de referenciar o
grande mestre que foi e é Naná Vasconcelos. Meu grande ídolo musical. Quando
começava o show, ele fazia aquelas mágicas acontecerem com aquele som de
berimbau e aqueles gritos dele... parecia que eu estava em outro planeta, e, de
repente, eu tinha que entrar, eu fazia uma oração e dizia: “Meu Deus, me protege.
Como é que eu vou entrar num show lindo desse senhor?”. Eu tenho até hoje muita
saudade porque ele era aquele cara que todo domingo me ligava:
– Alô, sabe quem está falando?
– Oi, Naná.
– Como você sabe quem está falando?
– Naná, com essa voz só tem você, mais ninguém.
De alguma forma, eu sinto que ele me acompanha. A partir
desses momentos solos nos shows de Naná, eu quebrei um conceito que eu tinha
que nos meus shows solo era preciso ter uma super banda, e comecei a perceber
que o silêncio e o pouco volume de som tinham um valor imenso também. Show solo
e show com banda possuem linguagens diferentes, mas a música está presente do
mesmo jeito. Isso foi algo que aprendi com Naná.
Narayana Teles _ Para encerrarmos, uma curiosidade: a canção
“Flores de Amsterdã”, presente em seu primeiro álbum, foi composta para alguém?
Ela parece uma declaração de amor.
Sim. Escrevi para minha esposa, Renata Grecco. Eu estava em
turnê com Zeca Baleiro, queridíssimo, parceiro de várias histórias. Estávamos
na Bélgica, e, na música, existe algo chamado day off, dias que não têm shows. Daí,
resolvemos pegar um trem e passar o dia em Amsterdã, à noite, a gente voltava
de trem. Fizemos isso durante uns 2, 3 dias. Eu já tinha ido outras vezes a
Amsterdã, mas é sempre uma emoção, a cidade toda colorida, parece moderna e
cidade do interior, ao mesmo tempo. Falaram que era mistura de Mauá com Nova
Iorque. Um fato interessante é que as pessoas mais velhas são todas coloridas,
sorridentes, não tem aquela coisa de ser velhinho, de ter vergonha por não ser
mais jovem. Lá, o mundo é de todo mundo. Aí passei em uma loja onde vendia
cartões-postais com imagens de Amsterdã, aquelas tulipas maravilhosas. Ah, vou
mandar flores de Amsterdã para os meus amigos. Comprei um monte de cartão-postal
e comecei a mandar para os amigos, familiares, em cada um eu escrevia algo e
terminava com: “Um abraço. Flores de Amsterdã”. Até que um desses cartões eu
escrevi para a Renata, minha esposa. Foi onde me derramei mais, estava com
saudade. E, na verdade, escrevi ali a letra da música. No avião, voltando ao
Brasil, já começou a vir a melodia. Quando cheguei em casa, peguei o violão.
Lembro que o disco estava pronto (Ouro e Sol), e pus a música também. “Flores
de Amsterdã” foi a última música a entrar no disco.
Para conhecer o trabalho de Lui Coimbra, bem como datas e
locais de suas apresentações musicais, siga-o em seu Instagram: @luicoimbra e nas
demais plataformas de streaming onde constam seus álbuns.
Beijos de Hortelã!

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