Alpendre [2010]

 

                                                           Fortaleza-CE

As flores coloridas insistiam em dar-lhe bom dia, um gesto ofensivo quando se há mágoa no peito e não se sabe ao certo o porquê.

Certa vez, passara diante de várias pedras expostas em uma parede, dispostas em sacos com o nome do autor e vendida no quilo.

Huum, isso sim a interessava.

Perguntava a si mesma:
quem compraria esses restos de nada que remetem a coisa alguma?

Era sempre assim...

Olhava, parava, pendia a cabeça negativamente para um lado, ria e seguia.

Às vezes, voltava, sentia vontade de pegá-las como se fosse possível compreendê-las, achava ridículo e seguia.

As flores coloridas e seu bom dia.

Defronte delas, as pedras demolidas de algum castelo.

Para mais uma vez, vê Samanta passar ao seu lado carregando a habitual garrafa com água. Deseja regar a boca seca naquele momento, mas deixa-o passar para evitar assim o incômodo.

Na tarde seguinte, a cena se repete, mas, dessa vez, decide acompanhar os passos apressados de Samanta e puxa uma conversa:

- Sá, que você acha dessa exposição, te diz alguma coisa?

A virginiana de voz rouca com ascendente em sagitário ri.

- Talvez agora ela não represente nada pra mim, mas acredito que daqui a alguns anos eu certamente lembrarei dela com significado. A arte depende do seu estado de espírito.

- Me f...

(pensou em voz alta)

Naquele instante, seu espírito se identificava apenas com seu par de meias: suadas e repetentes.


Quarta-feira, dia neutro, como costumava declarar aos mais próximos, pois não era preguiçosa como a segunda, nem nervosa como a terça, esperançosa como a quinta, tampouco lasciva como a sexta, o que seria então?
A filha do meio, sem graça e indecisa.

Foi numa quinta que conseguiu gritar seu silêncio.

Olhou para as pedras e viu a si mesma.


Fragmentos

         Resquícios de alma

                              Vida

                                         Pó

 

Havia entendido a composição.

Trocou Drummond por João Cabral.

Quis levar algumas pedras para pôr na parede do quarto, mas eram pesadas e caras, contentou-se em conversar com elas no atravessamento dos dias e passou a desejar, então, bom dia para as flores coloridas... 

“A vida começa no ponto final”.


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