Clarice [2010]


                                 Serra da Barriga-AL


Ela sabia.

Dentre tanta gente chata e banal, ela sentia.

A mão no queixo, o olhar atento (desinteressado), mas, atento, alheio às trivialidades do local.

“São apenas pessoas”, pensou.

“Pessoas encobertas de possibilidades ínfimas como tudo na vida”.

A destreza das palavras lhe era suficiente e ao mesmo tempo incompleta, sabia que deveria incomodar, criar problemas, despertar desejos, pensar o outro e no outro. Mas por que tentar, se a diferença vive na margem?

Ela busca o novo, o impalpável, o inexistente, o intransitivo.

É, o que vê, o que não vê, não convém: são ruínas, calabouço silenciado.

Felicidade debreada, inventada, que parte do princípio de si mesma, ou seja, do mesmo, acreditando existir diferença e acaba por resultar em nada.

Estar não é vida, ser talvez o seja, pois somos infinitos em nossa finitude.

Estar, permanecer, ficar, são verbos que passam, só funcionam se nos deslocamos e podemos nos deslocar parados.

Contudo, ela parece sentir vontade, sabe que é bom estar no outro e saber é ousar, quem ousa pode e poder é sinônimo de gozo.

Era preciso ganhá-la, e, isso, ela já sabia.



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